02/07/2014

Terceiro dia, o cerco e o labirinto de Angoulême

Noite molhada em Biarritz e ao longe, porque acordámos cedo e ainda não havia agitação, ouviam-se as ondas do mar... de pouco ou nada serviu o apelo do rebentar das ondas com o clima que se mantinha desde o dia anterior. Levantar a tenda foi uma tarefa feita à pressa e, pelo ponto de vista da gravidade, mal calculada, de tal forma que ao tentar colocar a CBF no descanso central para que ficasse mais estável, esta acabasse por ter um "tratamento de beleza" sobre o lado direito, ficando em repouso numa poça de lama que se tinha formado com a chuva, para além do aspecto de tractor acabado de sair da lavoura, não teve nada, valeu isso.
Pequeno-almoço tomado à moda francesa com os pain au chocolat e vamos seguir caminho debaixo de chuva fraca e algum nevoeiro para fazermos mais um cerco a Angoulême.
Até Bayonne tudo bem, era ali mesmo ao lado... o problema foi daí para norte, onde ajudados pela falta de sol, tomámos um rumo em direcção a Orthez, acabando por parar em Lacq para abastecer e... comprar um mapa (estávamos completamente fora dos mapas que levávamos connosco) onde, finalmente, se fez luz (não que o tempo já tivesse melhorado) e acertámos com o destino, muito graças à excepcional marcação das estradas francesas, difícil será encontrar uma qualquer via que não tenha a designação junto às placas de indicação das localidades!
Apanhámos então a D31 em direcção a norte, entrámos de seguida da D945 até Sault-de-Navailles onde entraríamos na D933 até perto de Mont-de-Marsan, onde passámos então para a D932 que passa por Roquefort em direcção a Langon, rumando a partir daí pela D1113, na qual parámos, antes de chegar a Villenave-d'Ornon, para petiscar o lanche que havíamos trazido de uma superfície comercial onde tínhamos almoçado horas antes, bem como dar uso às cadeiras que já estavam secas fruto da melhoria das condições atmosféricas com um envergonhado Sol que já nos acompanhava há algum tempo.
Desde o ponto onde parámos para lanchar até consumar o cerco a Angoulême estimava demorar qualquer coisa como hora e meia de viagem (eram umas 17h30, hora local) e, naturalmente, mais qualquer coisa para apreciar as vistas na cidade e posteriormente encontrar o Camping du Plan d'Eau situado poucos quilómetros a norte da cidade... se a primeira parte foi mais ou menos de acordo com o planeado, a chegada a Angoulême, já encontrar e dar entrada no campismo... foi uma história completamente diferente.
Nunca até então havia lamentado tanto não ter uma câmara de capacete... Angoulême está localizada num local que, pessoalmente, achei bonito e está igualmente cheia de locais que merecem ser vistos em detalhe e guardados para mais tarde recordar (acho que vamos ter que lá voltar mais tarde... se calhar na altura da banda desenhada, porque não?) e para ter um pouco da cidade para levarmos connosco, parámos no miradouro onde se encontra o busto de Sadi Carnot (vista de rua do google)... a vista é o que se pode imaginar, porque nenhuma foto lhe fará justiça.
Momentos kodak à parte, arrancámos em busca do campismo, pedindo direcções numa estação de serviço próxima, a jovem, muito prestável, recorreu ao talão da máquina para indicar o número de rotundas que teríamos que passar para encontrar o campismo... Merci et au revoir e lá fomos nós!
Estas foram as melhores indicações que obtivemos que apenas falhavam por não referirem a distância que era necessário percorrer na última saída da última rotunda, pois a jovem também não sabia onde era ao certo o campismo, sabia apenas que era "por aquelas bandas"... não o encontrámos, mas encontrámos um supermercado, onde pedimos indicações, mandaram-nos no percurso inverso. Mais uma volta mais uma moeda e estávamos novamente junto ao supermercado, mas desta vez perguntámos a duas jovens que por ali andavam, na esperança de conseguirmos comunicação numa língua que nos fosse mais familiar... esperanças goradas, fomos pelas indicações dadas em linguagem gestual passar nos mesmos sítios de novo, rotunda após rotunda (Viseu, anyone?), placa indicadora após placa indicadora com um sem número de linhas em letra pequena... ao que comecei a ler as placas de baixo para cima justamente na última rotunda que a jovem da estação de serviço me tinha indicado inicialmente (terceira vez que aqui estava... isto de juntar letras tem muito que se lhe diga) e lá fomos em direcção ao campismo pelo que restava deste labirinto e... lá chegámos!
Encontrámos uma entrada com dois portões mas sem nenhuma indicação de onde seria a entrada para a recepção... um indivíduo forte aproximou-se e dirigiu-se a nós, em francês, cumprimentando e perguntando o que estávamos à procura, quando lhe dissemos que procurávamos a recepção do campismo para passar a noite em "portucês", respondeu-nos que a recepção fechava às 21 horas... olhei para o relógio da mota e passavam cinco minutos... de dentro do capacete soltei um sonoro "Fpiiiiise!" ao mesmo tempo que a minha companheira começa a dizer qualquer coisa que certamente não seria nenhuma reza católica... o indivíduo desloca-se lentamente até a traseira da mota e após olhar para a matrícula remata a seguir "Se falassem Português tinha sido tudo mais fácil!"... o nosso interlocutor era o responsável dos comes e bebes do campismo, Português de gema, com saudades de Portugal, motard de Ferro e indicou-nos para que passássemos ao lado da cancela que ele já tratava do resto e assim fizemos e assim passámos a noite no campismo de Angoulême. Estando tão longe de casa e onde ao pedirmos uma cerveja para refrescar ao pôr do sol, depois de montada a tenda, nos perguntavam "Super Bock ou Sagres?"... devo ter morrido e chegado ao céu!

Enviar um comentário